O QUE TENHO APRENDIDO COM A PERDA DE MINHA MÃE.

Depoimento de Eliseu Pereira que perdeu sua mãe tragédia que atingiu a região serrana o Rio de Janeiro. Extraído do Jornal Batista do dia 27/03/11

   
Desde que comecei entender que minha mãe havia ido embora para sempre, surgiu em minha mente o desejo de escrever um texto que expressasse como um sofrimento tão grande pode nos ensinar a viver. A notícia da tragédia na região serrana do Rio me atingiu com a força da enchente que inundou a casa de minha mãe, Marieta Penha Pereira no dia 12 de janeiro de 2011. Mas depois que as águas baixaram vi que mesmo em meio ao caos ela deixou muitas lições para mim.

Primeiro aprendi que as mães não são imortais. Nem os pais, nem as pessoas que amamos e nem nós mesmos. Todos se vão e todos nós iremos um dia. Afinal diz a Bíblia que vida é um sopro, uma faísca sustentada pelo criador e um dia ela voltará par ele. Nosso corpo é pó e um dia ao pó voltará. Minha mãe foi surpreendida pela chuvas torrenciais e ate hoje não temos noticias sequer de seu corpo. Mesmo assim sei que ela está com o Senhor e que está bem. Simplesmente sei.

Aprendi que não somos donos de nada, nem da própria vida. Não trouxemos nada e nada levaremos. Minha mãe havia acabado e reformar a casa e comprar móveis novos. No dia anterior a tragédia ela havia colocado seus vasos favoritos na parede. Deixou tudo para trás, o que possuímos de fato e intangível.

A propósito ela se foi de modo que não me deixou nada, nada mesmo. Tudo que ela possuía ficou coberto pela água e areia. Mas ela deixou sim um exemplo que a água e a lama jamais cobrirá: Seu testemunho, dignidade e grandeza, suas memórias que sinalizam um caminho que sobe iluminados por sua fé em Deus.

Aprendi que nada aqui é permanente. Nem as bênçãos, nem as dores, nem as alegrias, nem as tristezas. Ai de nós se vivermos apenas para o que vimos e tocamos! Minha mãe iria completar a arrumação da casa no dia seguinte. Mal sabia ela que estava de mudança para outro lar, um lar eterno, não reformado por mãos humanas, mas preparado nas muitas moradas da “casa do Pai”.

Aprendi que não temos qualquer controle sobre o tempo. A meia-noite falei com ela pelo Skype, enquanto ela tomava seu tradicional charzinho com biscoitos de água e sal. Despedimo-nos pela webcam. Ela costumava acenar com a mão dando um tchauzinho. A uma hora da madrugada ela foi se deitar. Às 3 horas, quando acordou, não havia energia elétrica e a água já estava na altura da janela.

Minha mãe teve poucos minutos entre acordar do melhor sono da madrugada e abandonar a casa com o pijama no corpo m meio a forte correnteza. Ela só teve uma opção: Estar pronta. Aprendi que não há lugar seguro neste mundo. A casa da minha mãe era de tijolos, não era próximo do morro nem de rios e mesmo assim não suportou a tempestade. Mas constatei que ela possuía outra casa que havia construído ao longo de sua vida: A casa da fé em Deus, esta sim suportou maior tempestade a história do Brasil. A casa de alvenaria ruiu mas a espiritual estava firmada em um fundamento superior, naquele que se chama Rocha terna, Jesus.

Aprendi o que significa, “meu poder e aperfeiçoa na fraqueza”. Minha mãe era uma mulher pequena, magra, idosa e já não escutava muito bem. Não tinha forças físicas nem emocionais para enfrentar situações excepcionais. Mas passado o susto inicial, quando teve que sair de sua casa no escuro para as águas, ela ficou em silencio sem desespero, serena, em paz, porque certamente lembrou-se que o salvador era poderoso para guardá-la naquele dia mau.

Aprendi com ela a colocar minha confiança em deus antes de dormir: “em paz me deito e logo pego no sono, porque só tu Senhor me fazes habitar em segurança”. Minha mãe recitava este salmo todas as noites ao deitar. Agora entendo melhor que ela queria nos ensinar o que significa descansar em Deus.

Ainda estou aprendendo algumas coisas e certamente continuarei a aprender outras coisas que ainda não tenho condições de entender agora. Mas quer saber, eu preferia não ter aprendido nada e ter minha mãe aqui comigo. Dar a ela o conforto que eu pudesse dar. Mimar seu rosto envelhecido, seus cabelos grisalhos, dar-lhe aquele abraço “quebra-os-ossos” cuidar dela em sua velhice até sua partida natural.

Porem, como não foi me dado escolher, ainda que chorando sua perca, eu me curvo diante Daquele a quem ela me ensinou a seguir, confiando que ele é bom, confiável, pleno de amor e também me guiará até o fim.

Dedico este texto especialmente a minha irmã Lucienne que foi o anjo da guarda da minha mãe naquela noite trágica, arriscando a vida para protegê-la o quanto pôde lutando contra as águas turbulentas e escuras sem soltar a mão da mãe, até que a Providência a jogou para um lado e nossa mãe para outro. O mesmo Deus que salvou minha irmã salvou minha mãe. Mesmo não tendo planejado passar por nada disso, Lu você nos orgulha muito pela coragem, pela superação e por ter sido, talvez a única capaz de levar minha mãe de mãos dadas até o fim. Graças a você, nós sempre saberemos como foram os últimos minutos de nossa amada mãe.

 
Eliseu Pereira
Membro da Igreja Batista do Bacacheri, em Curitiba - Pa
Fonte: O Jornal Batista