Era a hora mais quente do dia


“O SENHOR Deus apareceu a Abraão no bosque sagrado de Manre. Era a hora mais quente do dia, e Abraão estava sentado na porta de sua barraca” (Gênesis 18.1, NTLH).
Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho
            “Era a hora mais quente do dia”. Que poesia! Que sensibilidade!  É um momento crucial na vida de Abraão. Se o cenário e o momento chamam a atenção, todo o enredo fascina. É um diálogo entre Abrão, três homens e Sara, que entra atrasada na conversa. Era um dia quente e era a hora mais quente do dia. Um momento desconfortável.
Abraão oferece um banquete aos homens (vv. 7-8), que ele chama de “um pouco de comida” (v. 4), e em baixo de uma árvore. Era mesmo um dia quente, e uma hora quente. Um dia para não fazer nada. Tanto que Abrão estava “tomando a fresca”. Manhã calorenta, hora de desânimo. Deus chega com uma grande promessa: “No ano que vem eu virei visitá-lo outra vez. E nessa época Sara, sua mulher, terá um filho” (v. 10). O redator da história, que não duvido ser Moisés, deixa claro que a promessa era pra lá de absurda: “Abrão e Sara eram muito velhos, e Sara já havia passado a idade de ter filhos” (v. 11). Carrega nas tintas.

Num dia muito quente, numa hora muito quente, num momento próprio para não fazer nada, Deus faz. Faz promessa. Sara está atrás da cortina, que servia como porta de entrada da tenda. Certa vez preguei um sermão nesta passagem, “Ouvindo atrás da porta”. Falei de Sara. Ela ouviu atrás da porta. Mas também falei de Deus, que respondeu do outro lado da porta.

O texto é, literariamente, muito agradável. Cheio de detalhes curiosos. O relato é minucioso, assim produzido para ter ar de veracidade. Ler o texto até o versículo 18 é se deliciar com o estilo do autor e com os detalhes que ele revela. Há algumas lições aqui, muito ricas, e que nada têm a ver com a mensagem que preguei, baseada neste texto.

A primeira lição é a graça de Deus que ignora barreiras geográficas e atropela o paganismo. Deus vem a Abraão na hora mais desconfortável do dia, hora de cansaço, hora da sesta amapaense, e aceita a hospitalidade de Abraão. Este mora no “bosque sagrado de Manre” (v. 1), terra de pagãos. Deus vem aos seus no meio dos pagãos. Foi a Daniel, a Sadraque, Mesaque e Abdênego. Ele se chega aos seus, no cansaço e no ambiente hostil. Não importa onde estejam, e que horas sejam. Ele chega.

A segunda é a receptividade que devemos ter para com as visitações de Deus. Abraão recebeu com a típica hospitalidade dos orientais do deserto. Deu um banquete e ainda chamou de “pouca comida”. Não se ensoberbeceu. Seu muito era pouco. Tanta gente se envaidece quando Deus a visita! Ou conta vantagens a Deus! Ele oferece muito e diz que é pouco! Há gente que oferece um misto quente e pensa que ofereceu um banquete.

A terceira é a desconfiança. Sara ficou escondida. No Oriente Antigo, mulher não aparecia assim em público. Hoje, a situação seria chauvinista: “Isso é conversa de homem!”. Mas ela não crê na promessa. Abraão nunca diz nada. Ele sempre aceita. Sara desconfia. Este é o problema de quem ouve atrás da porta: nunca pega a conversa por inteiro. Há gente atrás da porta, ouvindo a Palavra de Deus. Pega as coisas pela metade ou não vê, como no caso de Sara, a expressão da fisionomia do mensageiro de Deus. Fica mal informada. Pode até ouvir bem. Mas não com os ouvidos da fé.

A quarta é que Deus não aceita a dúvida. “Por que Sara riu?” (v. 13). Talvez ele diga a muitos de nós: “Por que você não acredita?”. Ele nos vê mesmo quando estamos escondidos atrás da porta. Não aceita que duvidemos, e reafirma sua promessa: “E nessa época Sara terá um filho” (v. 13).  Nossas dúvidas não o desviam de seu propósito. Seu poder é maior que nossa dúvida e sua determinação de agir na história não depende de ninguém. Ele não precisa de nossa aprovação.

A quinta é o medo: “Ao escutar isso, Sara ficou com medo e quis negar” (v. 15). Agora ela viu que não era gente comum que estava com Abraão. É gente que ouviu seu íntimo. A dúvida gera o medo. O medo gera a mentira. Deus não aceita medo nem mentira: “Não é verdade; você riu mesmo” (v. 15). Ele não “deixa barato”. Declara nosso pecado. Principalmente o pecado de não crer e suas conseqüências, como o medo.

Talvez hoje seja um dia muito quente para você. Um momento desconfortável na sua vida. Do ponto de vista espiritual e emocional, talvez o dia lhe seja mais quente que a sensação térmica da minha abandonada, mas amada Macapá, com seus 43 graus. Não fique prostrado! Não se deixe abater! Lembre-se de como começou nossa história. No momento mais quente do dia, na hora de maior desconforto, “ele olhou para cima e viu três homens, de pé na sua frente” (v. 2). Quem sabe o que se passava pela cabeça de Abrão! O tempo passava, ele e a estéril Sara envelheciam, e nada do herdeiro prometido. Na hora do desconforto e do cansaço, Deus chegou.

É a hora mais quente do dia para você? Levante seus olhos! Olhe para cima! Deus está chegando!